23 de agosto de 2018

Descobertas, Invenções e Disrupção

0 Flares 0 Flares ×

Texto por Zauber Melo – coach empresarial e diretor administrativo-financeiro

 

AS INVENÇÕES

Já não é de hoje que vimos sendo induzidos (pelo menos, minha geração o foi) a pensar em avanços científicos e tecnológicos como sendo a ideia de um único “iluminado”, “gênio”, ou coisa semelhante; por vezes, atribuída a um determinado povo ou etnia, sabe-se lá com que fins.

Entretanto basta efetuarmos uma pesquisa um pouco mais acurada para esses pressupostos caírem por terra.

Podemos iniciar nossa “viagem” voltando à invenção da máquina a vapor. Seu inventor foi James Watt, certo? Errado.

Perceba como as coisas acontecem e que o trabalho não é de um único indivíduo, mas de mentes coletivas.

Thomas Newcomen inventou, em 1712, uma bomba para drenar água das minas de carvão, que era acionada por um motor a vapor.

Outras invenções também aceleraram a fabricação de produtos, principalmente tecidos e roupas.

Entre 1765 e 1782, o escocês James Watt introduziu importantes melhorias na máquina a vapor. Em 1787, John Fitch, nos Estados Unidos, montou um barco a vapor e foi somente em 1803 que Richard Trevithick criou a locomotiva a vapor.

Mas sempre disseram para nós, na escola, que havia sido James Watt o inventor da máquina (locomotiva) a vapor.

E quem inventou a máquina de escrever (datilografia)? Foi obra de outro coletivo: a invenção de um primitivo dispositivo de escrever mecanicamente é atribuída a Henry Mill em 1714. O italiano Pellegrino Turri introduziu, em 1808, o sistema de teclado. Posteriormente, o mecânico norte americano Carlos Thuber criou um modelo aperfeiçoado, com maior rapidez de escrita (1843). Outros nomes como os do norte-americano Burth, o inglês Jenkins, o francês Pogrin, e um brasileiro, o padre Francisco João de Azevedo, colaboraram para o aperfeiçoamento da máquina.

Aliás, no Brasil, a invenção é atribuída esse padre, nascido na Paraíba do Norte (atual João Pessoa) em 1827 e falecido em 1888. Professor de Matemática do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, integrante de uma família em que existiam mecânicos, constrói um modelo de máquina de escrever que apresentou na Exposição Agrícola e Industrial de Pernambuco em 1861, e na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, na qual foi premiado com a Medalha de Ouro.

A invenção do padre Azevedo parecia com um piano de 24 teclas que imprimiam letras num papel – para mudar de linha, era preciso pisar em um pedal na parte de baixo do aparelho. Alegando estar velho e doente, o padre entregou seu invento ao negociante George Napoleon Yost, com a promessa de que havia pessoas interessadas em fabricá-lo nos Estados Unidos.

Péssima ideia. Em 1874, o americano Christofer Sholes apresentou um modelo quase igual ao do padre Azevedo. Uma indústria norte-americana interessou-se e passou a fabricar as máquinas, sem nem se lembrar do brasileiro.

Querem outro exemplo? Quem inventou o rádio? Guglielmo Marconi, certo? Errado.

Marconi conseguiu emitir sinais de rádio para fins telegráficos (sem fio).

Foi Roberto Landell de Moura, um outro padre brasileiro, o responsável por fazer em 1894, portanto, dois anos antes de Marconi, uma experiência pioneira de radiodifusão – mas acabou menosprezado pelos registros históricos.

Quem inventou o avião? Santos Dumont, ou os irmãos Wright? Melhor resposta: leiam o livro escrito pelo próprio Santos Dumont, “O que eu vi, o que nós veremos” e verão que ele compartilha com vários inventores da época o seu feito e, ainda, aplaude o feito dos irmãos Wright.

E por falar em aplaudir, nosso Dumont assim se refere a seus colegas inventores: “Nos Estados Unidos, Wright, Curtiss, etc., foram aviadores precursores, já não voam há 10 anos e agora estão encarregados da organização e construção da aeronáutica. Em França, Bleriot, os Farman, os Morane, etc., foram aviadores precursores, não o são mais há muitos anos e também estão utilizados pelos seus governos para a construção e organização da navegação aérea. Clement, Delauney, Marquis de Dion, Renault, etc., foram todos “chauffeurs”, porém, agora, são considerados os inventores do automobilismo e estão encarregados da sua construção e organização. Estes senhores foram “chauffeurs” ou “aviadores”, como eu também o fui. Não mais o sou, como também eles também não o são; mas o dom de inventores, a aptidão de organizadores e de construtores e este conhecimento das necessidades da arte que eles inventaram e praticaram lhes ficou, e os seus governos os têm sabido aproveitar.”

 

AS INOVAÇÕES DISRUPTIVAS

Esse senso de coletividade em invenções e descobertas científicas, tecnológicas, ganha ainda mais força quando pensamos em disrupção.

Mas o que é disrupção? Vamos recorrer ao dicionário online Aulete:

(dis.rup.ção)

1. Ruptura, rompimento, dirupção.

2. Elet. Restabelecimento súbito de uma corrente elétrica.

Estamos vivendo em uma era de transições e quebra de paradigmas, ou seja, de disrupções. Muito se fala em conhecimentos e tecnologias disruptivos.

 

Vejamos alguns exemplos dessas mudanças (tanto antigos quanto mais recentes):

Inovação Disruptiva Tecnologia deslocada ou marginalizada Notas
Computador portátil Computador de mesa Os computadores laptop foram criados para serem utilizados em aviões. Por boa parte de sua história eles tinham menor performance, mas eles estão se igualando e o preço caindo, com o uso aumentando consideravelmente.
Download de mídia digital CDs, DVDs Tanto as indústrias de filmes quanto de músicas veem o P2P como uma ameaça bem real a sua existência.
Editoração eletrônica Editoração tradicional Os primeiros sistema de editoração eletrônica não conseguiam atingir os sistemas profissionais high-end nem em funcionalidade nem em qualidade. Porém, eles reduziram os custos de entrada nos negócios de editoração, e a economia de escala eventualmente acionou eles a passar as funcionalidades dos sistemas profissionais dedicados de editoração.
Escavadeira hidráulica Escavadeira operada por cabos Escavadeiras hidráulicas eram claramente inovativas na época de sua introdução no mercado, mas ganharam aceitação apenas décadas depois. Porém, escavadeiras a cabo ainda são utilizadas em alguns casos, como escavações de grande porte.
Fotografia digital Originalmente, fotografia instantânea, agora todas as formas de fotografia química Câmeras digitais antigas sofriam com baixa qualidade de imagem e resolução, além de baixa velocidade de captura. Qualidade e resolução não são mais problemas, e a velocidade de captura melhorou consideravelmente. A conveniência de pequenos cartões de memória e discos rígidos portáteis que podiam armazenar centenas de milhares de fotos, além de não ter que passar pelo processo de revelação, ajudaram a deslocar as câmeras químicas, aos poucos, para fora do mercado ou para nichos.

LED

Bulbo de luz

Luz com utilização de LEDs é a maior revolução no setor de iluminação desde de 1879, quando Thomas Edison transformava o invento da lâmpada incandescente em algo comercializável. De lá pra cá, pouco mudou nessa tecnologia que hoje é utilizado em grande escala no mundo.

Sem dúvida o LED continuará sendo uma tecnologia utilizada nos próximos 100 anos como solução de iluminação, essa lâmpada chega a economizar 90% de energia e durar mais de 20 vezes o tempo de vida de uma lâmpada incandescente. Sem dúvida veio para ficar, pois não faz mais sentido utilizar outro sistema de iluminação.

Microcomputadores Mainframes Apesar dos mainframes terem conseguido sobreviver em alguns nichos de mercado, os minicomputadores foram extintos.
PC Minicomputadores, Workstation Workstations ainda existem, mas estão cada vez mais sendo montados com peças de sistemas PC high-end, ao ponto que a distinção está começando a ficar difícil.
Plástico Metal, madeira, vidro, etc. Baquelite e outras formas de plásticos antigas tinham uso bastante limitado, suas vantagens eram apenas baixa condutividade para isolamento elétrico e baixo custo.
Publicações digitais Publicações impressas Recentemente, uma grande editora nacional cancelou 11 de suas maiores publicações, que, até pouco tempo atrás, eram campeãs de vendas.
Telefones Telégrafo Quando a Western Union se negou a comprar as patentes do telefone de Alexander Graham Bell por apenas $100,000, seu mercado era de telégrafos de grande distância a altos custos. Telefones somente eram úteis para ligações locais.

 

Já não se concebe mais a ideia – digamos, até fantasiosa – de criações e inovações individuais, porque estamos passando por uma mudança de eixo das cadeias produtivas em que, cada vez mais, o consumidor influencia e, até mesmo, interfere na produção de bens e serviços. Esse recente fenômeno deu origem a uma categoria nova de demandante: o prosumer (ou prossumidor, em português), termo cunhado para indicar aquele que consome e produz ao mesmo tempo. Além disto, atualmente já é possível baixar-se da internet instruções para que uma impressora 3D caseira produza determinado bem. E essas impressoras estão paulatinamente tornando-se melhores em eficiência e na relação custo-benefício.

Em meio a estas tantas e outras tão importantes mudanças, resta a pergunta: qual é o papel do marketing neste exato momento e num ambiente de transições tão rápidas e impactantes?

Esse é, com certeza, um dos objetos de estudo de nossa consultoria.

Assim é a Garden: pés no presente que caminham visando o futuro.

 

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 LinkedIn 0 0 Flares ×