14 de agosto de 2018

As Periferias Digitais

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Texto por: Mayra Finamore – Publicitária

“Periferias Digitais” é um termo forte que desperta a curiosidade em quem ouve falar. No sentido literal da palavra, seria impossível existir uma periferia no meio digital, já que para o Dicionário Online de Português a periferia é o “contorno ou linha que limita uma superfície curvilínea; circunferência” ou “o que fica nos arredores, nas circunjacências de algum lugar.”. Mas na definição social da palavra periferia, esse termo faz mais sentido do que você imagina.

Para contextualizar, vamos falar primeiro sobre a construção do significado de periferia no Brasil, no âmbito social, que tem origem no final do séc. XIX em São Paulo com a imigração e a abolição da escravatura. Os estrangeiros e os negros se viram expulsos do centro da cidade, encontrando refúgio e construindo suas comunidade às margens, em locais que eram periféricos geograficamente, por isso o termo periferia.

Desde essa época até os anos atuais, a periferia tem se constituído como parte da sociedade “invisível” e sem voz, sem participação efetiva política e democrática.

Entendendo esse conceito da construção das periferias, podemos falar da revolução das plataformas digitais, que transformou a comunicação mundial, proporcionando ligação entre pessoas e criando comunidades que antes não existiam. Os usuários não se comportam mais de forma passiva em relação aos meios de comunicação, hoje, os retornos populares estão cada vez mais rápidos e exigentes.

O autor Marco Antonio Bin, no texto “As periferias digitais: mobilização para além da resistência”, cita um trabalho realizado nas comunidades Pinheirinho e Campo dos Alemães em SP, com o objetivo de implantar um Polo Cultural, onde as comunidades se reuniram para compartilhar seus movimentos culturais e seus conhecimentos. O projeto não conseguiu ser concluído, e, segundo Marco Bin, o motivo deve rondar em torno da dificuldade de comunicação entre os moradores da comunidade. Era muito difícil reuni-los em um lugar e o compartilhamento da cultura e da força da comunidade se perdia no meio dessa falha.

Depois do acesso à internet, das redes sociais e dos apps de mensagens instantâneas, as pessoas começaram a se encontrar virtualmente, a se aproximar daqueles que tinham gostos e interesses semelhantes, e participantes de grupos que já existiam começaram a ter mais voz ativa.

Desta forma, as periferias já constituídas fisicamente nas cidades se transportaram para a web, ganhando cada vez mais força e voz, como explica Marco Antonio Bin nesse trecho de seu texto:

“O espaço digital proporciona um novo modo de exercer a democracia, quando a TV pública ganha o acesso nas telas dos computadores ou dos celulares; a rádio comunitária se reproduz nos meios digitais, levando a voz do cidadão que até pouco tempo era invisível. A ação política e um movimento social ou a atividade cultural de um coletivo informam e podem ser acompanhados nos sites desses grupos; fotos e vídeos podem ser capturados e compartilhados em distintas redes, como YouTube, Twitter, Facebook, Instagram; as convocatórias para eventos coletivos são acionadas por aplicativos de simples manejo como o WhatsApp.

Com todas essas inovações tecnológicas, bem como seu acesso massivo, o alcance ideológico dos meios tradicionais de comunicação é limitado; a produção vertical e hierarquizada da informação perde sua força.

A participação social nas mídias digitais propicia novas possibilidades à produção de informação, conhecimento e entretenimento. O tradicional conceito de comunidade definido pela vontade natural e espírito gregário ganha novas roupagens ao imaginarmos as teias colaborativas tecidas no ciberespaço, estendendo os limites da comunicação e, conforme Henri Lefebvre, “é em seu relacionamento ativo com as realidades e por meio dele que o ser humano as penetra e captura o seu devir; o ser humano compreende as coisas ao transformá-la”.

É poderosamente instigante uma proposta como a do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, que propõe tornar “as histórias e falas dessas mulheres (periféricas) ainda mais acessíveis e valorizadas”, ao abordá-las e discuti-las com as outras mulheres do mundo, ou a quem queira se interessar. O debate não se prende apenas ao universo das mulheres conhecidas, mas também inclui aquelas que serão conhecidas, todas tomadas pelos mesmos dilemas, pelas mesmas angústias, pelos mesmos desejos, na concepção de um mundo em contínua produção, “em via de enriquecimento e aprofundamento perpétuos”. E esse é apenas um dos exemplos possíveis. Com as alternativas múltiplas de participação e interação social, proporcionadas pelas redes constituídas pelas mídias digitais, o cidadão das periferias passa a dispor dos instrumentos para fazer ouvir sua voz tão ausente, mas também tão penetrada por desejos e questionamentos. Já não é preciso abandonar o território da precariedade para se colocar cada vez mais como protagonista e fugir do papel de figurante – ação indispensável para se pensar uma realidade social mais justa e participativa.”

O papel da internet e das mídias digitais, então, ultrapassam os interesses tecnológicos criando uma revolução social e democrática. Vários movimentos sociais surgem e ganham apoio, como exemplo das Pretas Peri e o Sarau do Grajaú, citados no texto de Marco Antonio Bin, também o Coletivo de Naiá, o Espaço Luiz Estrela em BH, que surgiram na internet, ganharam apoio, voz e se estabeleceram através dos meios digitais e venceram batalhas judiciais (entre outras) e são hoje conquistas culturais da comunidade.

Referências:

http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/123209/129440

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